Lutas da Alma   

MEU TESTEMUNHO
Tenho pensado recentemente a respeito do relacionamento do principe Charles e da sua falecida esposa Diana e como é a grande a similaridade do relacionamento deles como casal com o meu relacionamento com Deus. No início dos anos 80 parecia que havia uma enorme paixão entre Charles e Diana; porém, depois de um certo período entrou em ação um outro relacionamento: uma relação devidamente orquestrada, basicamente teatral entre aquele casal famoso. E parece que entre ambos surgiu algo consensual onde se admitia: “Nós vamos dar as mãos diante do público, durante um certo período vamos viver juntos, mas o fato é que - ambos sabemos - a paixão que nos uniu já não existe mais.”

Aqui está o coração da minha analogia: ao longo de muitos anos, muito ocupadamente era meu envolvimento na igreja e na Obra de Deus de um modo geral, mas ao longo dessa caminhada – não foi para mim fácil admitir – eu perdi a minha paixão por Deus e pelo meu relacionamento com Ele. E por muitos anos a minha tarefa era manter esse “casamento” com todas as obrigações que um casamento requer em termos de desempenho.

Na ocasião, estando já no ministério por mais de dezoito anos, eu me tornei orgulhoso das minhas realizações ministeriais. Afinal eu já havia plantado três igrejas, levantado milhões de dólares para um movimento de plantação de novas igrejas que iniciei em 1992 através da Mission to North America (agencia de plantação de igreja da minha denominação) e iniciando do zero, sem nenhum recurso financeiro a não ser uma grande e apaixonada visão de expandir o reino de Deus através de plantação de igrejas. Resultado? Várias igrejas foram plantadas, dezenas de pastores e lideres treinados, recursos necessários levantados...impressionante? Eu achava que sim e eu me orgulhava do meu trabalho. Mas o que eu não me dei conta foi que no processo de alcançar aqueles alvos o ministério acabou se transformando no meu ídolo. Sempre muito ativo, pregando, ensinando, recrutando, estrategizando e levantando dinheiro para a Obra de Deus, essa era a minha rotina diaria.

Nesse processo, acabei produzindo uma esposa infeliz e três filhos rebeldes. Se o ministério era o meu ídolo, o ídolo da Tereza era os meninos. Toda a sua vida ela preparou os meninos para serem bons cristãos. Nós colocamos os meninos uma escola cristã bastante legalista, todos os verões eles frequentavam pelo menos duas semanas de Acampamento cristãos e frequentavam tanta Escola Bíblica de Férias que fosse possível.

Em 1995 nós nos mudamos de New Jersey para Orlando, Florida. Uma vez que eu não estava mais plantando igrejas por mim mesmo, começamos a frequentar uma igreja da nossa denominação, River of Life, pastoreada por Chuck Holliday. Em 1997 Chuck nos introduziu a um material que circulava largamente pelas nossas igrejas da PCA. Nome do material: “Sonship” talvez a melhor traduçao seja: “Aba Pai!” um estudo centralizado na adoção/filiação com base primordialmente no livro de Gálatas. Eu e a Tereza participamos num grupo pequeno de estudos desse material e fizemos todos os “homeworks” requeridos pelo curso.

Poucos meses depois eu comecei a perceber uma significativa e profunda diferença na vida da Tereza. Aquela mãe forte e controladora estava sendo substituida por uma calma, serena e mais compreensiva ser humana em relação à fraqueza e aos pecados dos seus filhos. Essa mudança falou de uma forma extremamente profunda para mim; passei em ver na minha esposa de mais de vinte anos algo completamente inusitado e eu descobri que a Tereza possuia algo que eu ainda não tinha e então me dei conta que eu não poderia mais prosseguir vivendo a minha vida daquela maneira!

Meus dois alvos na vida sempre foram: número 1, ser um líder bem sucedido, meu alvo número 2 era projetar uma boa e bem sucedida imagem diante das outras pessoas. Esses dois alvos – creio eu – andavam de mãos dadas, eles eram uma força compulsiva em minha vida.

Eu queria ser bem sucedido e queria projetar a minha boa imagem. Eu me deliciava com meus projetos de plantação de igreja e eu ia me dando muito bem com as coisas que eu me envolvia no meu ministério. Porque sob muitos aspectos eu estava “certo” naquilo que eu estava fazendo eu acabei me tornando uma pessoa perigosa. Me tornei perigoso porque pessoas que estão “certas” não precisam muito de Jesus. Pessoas que estão certas não precisam do Espírito Santo. Pessoas que estão certas não precisam gastar muito tempo em oração. A realidade é que eu estava radical e redondamente errado, o meu nível de auto-retidão atingia uma proporção estratosférica. Eu me excedia no trabalho devotando ao mesmo horas intermináveis e quando a minha esposa protestava eu me justificava dizendo a mim mesmo: “Essa é a obra de Deus e ela tem que ser feita!”

Em Março de 2000 o Senhor abriu as portas para que eu e a Tereza pudessemos assistir a uma conferencia sobre Sonship (Aba Pai) em Charlottsville, VA. Durante toda aquela semana eu pude ouvir ali muitas coisas que absolutamente não era nada de novo mas foi naquela semana que o Senhor me convenceu da dureza do meu coração e da gravidade do meu pecado; pela primeira vez o Senhor ali me mostrou a minha atitude rebelde em relação a Ele uma vez que – na prática – eu não cria na realidade e magnitude do Evangelho. Deus naquela semana realizou um verdadeiro milagre transformando o meu coração ao renovar o meu amor pelo meu Senhor Jesus Cristo. Deus restaurou a alegria da minha salvação e me resgatou de uma vida de idolatria.

Poucos meses atrás, numa manhã, eu estava em um parque próximo da minha casa, sentado num banco a mim bastante familiar; e ali eu contemplava alguns patos que nadavam felizes naquela linda manhã de primavera enquanto recebia no meu rosto o impacto de uma suave, doce e convidativa brisa. Naquela manhã em particular eu estava refletindo naquilo que Deus vem fazendo em minha vida: mostrando claramente a condição real do meu coração, minha preocupação com a minha imagem pessoal, minha cobiça e minha ira. Não sei como explicar mas naquela manhã eu fui tomado e abraçado pelo amor de Deus de uma maneira simplesmente incrível. Foi uma coisa maravilhosa porque naquela manhã de uma maneira singular eu compreendi a intensidade e a profundidade do amor de Deus por mim. E ali imediatamente pude identificar especificamente aqueles dois pecados em minha vida pelo qual eu havia me tornado bastante defensivo ao longo dos anos principalmente quando a Tereza a eles se referia. De repente, passei a me ver debaixo do sangue de Cristo, eu não me vi me defendendo, justificando, racionalizando...pelo contrário me senti abraçado, aceito, amado, como se Deus estivesse me declarando o Seu amor por mim e o quanto Ele se alegrava em mim, (Sofonias 3:17). Ganhei – decididamente – uma nova relação com esse Pai incrível.

Ainda continuo em batalhas com a minha natureza pecaminosa, mas louvando a Deus pelo Seu amor e pela Sua paciencia para comigo. O evangelho tem um novo significado na minha vida. Pela graça de Deus eu agora compreendo o que o saudoso Jack Miller afirmou certa ocasião: “Um orfão é alguém que de alguma maneira perdeu o toque da graça de Deus. E agora, isolado das promessas de Deus, essa pessoa desenvolveu uma visão ínfima de Cristo e uma pequenissima visão do evangelho. Por outro lado, um filho é alguém que está caminhando em fé e vivendo debaixo das promessas de Deus. Essa pessoa tem um grande Cristo e um grande evangelho.”

Outono de 2002

Nélio DaSilva

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