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ANSIANDO PELO SáBADO
Para mim, promover a necessidade de um sábado regular é o mesmo que ver Mick Jagger estivesse batendo no púlpito, pregando a abstinência de sexo, drogas e rock’n’roll Quem o ouviria sem gargalhar? Por isso encorajo todo o pastor a ler Eugene Peterson, ex-pastor e agora professor no Regent College, em Vancouver, British Columbia.

Parafraseando G. K. Chesterton, o problema não é termos um sábado livre e o desejarmos; o problema é termos um sábado livre e ele se tornar difícil. Todos aqueles que lidam com o trabalho desgastante do ministério sabem que o sábado livre é a solução. Mas parece uma solução fora de nosso alcance. Comprimir o trabalho necessário de uma congregação em seis dias parece um grande feito, mas as pesquisas mostram que muitos pastores conseguem tirar um dia de folga por semana.

Como a maioria de nós aproveita esse dia? Os pastores de folga trocam o óleo do carro, cortam grama, colocam as leituras do doutorado em dia, treinam o rime juvenil de futebol, desmontam as luzes do Natal, levam o cachorro ao veterinário para ser castrado e, inevitavelmente, passam algum tempo elaborando o sermão do dia seguinte. O que diferencia esse dia dos outros seis não é a ausência de trabalho, mas o enfoque no trabalho. Trabalho é trabalho, não é descanso. Passar um dia longe do ministério é necessário e pode até ser gostoso, mas não é um descanso sabático.
O descanso sabático restaura a energia, a esperança e a paixão. Guardar o descanso sabático significa interromper o trabalho que nos suga a energia, a esperança e a paixão. O descanso sabático significa colocar de lado o mito de que “ocupado é melhor”. Significa uma nova maneira de pensar a respeito do tempo, das prioridades e do lazer.

Meu parâmetro teológico é legalista. Penso no descanso sabático primeiramente como algo espiritual, um dia ajoelhado em oração dentro de um quarto, derramando meus pecados, meus sofrimentos e minha angústia diante de Deus. Alguns anos atrás, no momento crítico de uma decisão, um amigo emprestou-me sua casa nas montanhas, onde passei 48 horas em oração e jejum. Considerei aqueles dias como minha folga da semana. Embora tenha sido um bom tempo, voltei para casa exausto. Levei semanas para voltar ao normal. Refletindo sobre isso, diria que aquele tempo afastado foi um exercício espiritual bem-vindo e necessário, mas não foi um descanso sabático.

Antes da era tecnológica, para a maioria das pessoas, o trabalho significava esforço físico. A idéia do descanso sabático significava uma interrupção do trabalho físico. As opções normalmente proibidas de atividades sedentárias ou mesmo ausência de atividade eram deixadas para um dia na semana. A mente libertava-se dos negócios mundanos do trabalho para explorar a teologia, a música e a conversação.
Para os pastores, assim como para muitos outros cujo trabalho consiste em inatividade física mas grande atividade mental, talvez o descanso sabático devesse envolver suor e sol, interrupção da leitura, do pensamento, do aconselhamento e do sermão.

Quando vivia no Arizona, encontrei meu descanso sabático na fonte menos provável, de volta ao grupo do rodeio. Uma ou duas vezes por semana eu praticava por algumas horas com alguns dos laçadores locais na arena Silver Creek Sheriff Posse. Na maioria das noites de sexta-feira ou de sábado durante, todo o verão, eu competia em algum lugar do norte do Arizona. Meu primeiro artigo foi publicado na Super Looper, revista oficial do United States Team Roping Congress [Grupo de Laçadores dos Estados Unidos].

No verão de 1991, meus descansos sabáticos foram interrompidos quando caí junto com um cavalo e sofri fraturas oblíquas no pulso esquerdo, tanto no rádio quanto no cúbito, tive o escafóide quebrado em várias partes na base do dedão e abri o queixo. Preguei no domingo seguinte com 14 pontos no queixo e gesso até a axila. Durante os três meses seguintes, o gesso foi progressivamente diminuindo. Cortei a maior parte do gesso da palma da mão, de maneira que pudesse segurar as rédeas e o rolo da corda na mão esquerda, e voltei, de fato, ao ritmo normal mais ou menos em seis semanas.

Desde o começo, sofri muito com alguns membros da igreja por causa do rodeio. Peões de rodeio tinham fama às vezes merecida de bêbados preguiçosos e infiéis. Muitos dos membros da igreja estavam preocupados por ver seu pastor com freqüência na companhia daquela ralé.
Eu não tinha para quem dizer o quanto gostava das relações despretensiosas que encontrava entre aqueles homens. Todos me chamavam de “pregador”, e, embora não fosse meu objetivo principal, tive ótimas oportunidades de ministrar no ambiente do rodeio. Mas, o que era mais importante, tanto quanto a oportunidade de ministrar. As tensões se acabavam. A ira era domada. As preocupações era que minha alma se renovava colocadas em nova perspectiva. Eu ria. A alegria era renovada. E na maioria das vezes voltava para casa de coração confortado e espírito animado.

Quando morei no subúrbio de Chicago, tive muita dificuldade em encontrar alguém para brincar de peão de rodeio comigo. Experimentei diversos métodos para recarregar as energias. Corria, pescava e fazia longas caminhadas nas trilhas de Prairie Path. Ainda hoje continuo a procurar meios de integrar à minha vida os elementos do descanso sabático, como riso, solitude, submissão, adoração e lazer.

Subterfúgios

Você já deve ter ouvido piadas sobre pastores que encontram subterfúgios para o descanso sabático: o pastor que adora futebol e diz à secretária que vai visitar a família Gramado; ou aquele que adora pescar e tem um barco chamado Visita, que diz: “Estarei em Visita o resto do dia se alguém procurar por mim”.
Não estou defendendo os subterfúgios; o que me incomoda é o fato de pessoas mal-humoradas desaprovarem nossas atividades sabáticas e por isso nos fazerem lançar mão desses artifícios. Mas se elas pudessem ouvir nossa pregação quando estamos com espírito renovado, em vez dos sermões que fazemos quando completamente exaustos, talvez nunca mais tivéssemos de recorrer aos subterfúgios.
Durante anos esperei que alguém dissesse: “Pastor, estamos observando seu trabalho e como ele tem nos deixado cansados. Estamos muito preocupados com seu bem-estar físico e espiritual e insistimos diminua o ritmo a fim de recarregar a energia. Pode contar conosco, vamos acompanhá-lo”. Outro episódio na ilha da fantasia.
Então comecei a fazer esse pequeno sermão a mim mesmo a cada semana. Pelo menos a primeira parte. E ninguém percebeu nada. Não pude acreditar. Diminuí meu trabalho em 20%, e ninguém reclamou. Ainda aparecia quando necessário, fazia-me presente em momentos e lugares estratégicos e, quase toda semana, pregava com a paixão que surge da renovação.

Ed Rowell

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