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UM APERTO DE MãO AO PASTOR
Uma das mais vívidas memórias da minha infância é a de quando no final de um culto, eu me dirigia com certa ansiedade à porta da igreja a fim de apertar a mão do pastor. Para mim, um garoto de apenas 5 anos de idade, o pastor só estava apenas um pouco abaixo de Deus. Prá mim aquele homem representava a verdade, representava a própria coragem, representava honra e santidade. Meus pais gostariam que eu fosse pastor, eles até me consagraram a Deus antes sequer do meu nascimento, para tal propósito, porém, eu nunca me considerei digno de tão alta posição.

Eu observava os pastores que passavam e visitavam a nossa pequena igreja em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Eles me pareciam dotados de grande conhecimento, pessoas realmente especiais. Parecia que uma nova luz com um novo brilhar se despontava quando surgia o pastor. Todas as pessoas queriam falar com esse homem especial e no meu entender era uma grande honra quando ele se dirigia a certa pessoa. Na minha infância eu já cria naquilo que um dia iria tomar conhecimento do que Spurgeon já havia declarado: “Se Deus o chama para ser um ministro, não se rebaixe para ser um rei.”

Eu passei a honrar os pastores porque via nesse homens genuíno altruísmo. Eram homens cultos, capazes, eficientes. Homens que poderiam ter optado por uma outra carreira secular com grandes possibilidades de serem bem sucedidos. Mas eles fizeram uma opção por um caminho melhor. Eles eram os homens escolhidos de Deus.

Eu sei que tudo isso não passa de um grande idealismo da minha infância. Pastores são seres humanos. Alguns muito egoístas, outros até muito esquisitos. Mas aqueles eram homens bons que amavam a Deus e que tinham um sincero desejo de servir a Deus e as outras pessoas. Eles eram homens especiais.

Foram necessários quase vinte anos de tempo integral no ministério para que eu viesse a experimentar algumas mudanças drásticas. Atualmente eu sirvo como coordenador de implantação de igrejas. No meu trabalho tenho tido a oportunidade de verificar in loco o abuso que muitas congregações tem imposto contra os seus ministros. Alguns desses ministros foram despedidos sumariamente outros falsamente acusados e difamados além da imaginação. Outros se deram até o seu limite máximo antes de desistirem amargamente do ministério pelo qual foram chamados. Outros se encontram triturados emocionalmente diante de tremendas pressões e expectativas irreais. Hoje eu não estou apertando a mão dos pastores. Atualmente eu estou desesperadamente segurando as suas mãos antes que eles se afundem totalmente. Pessoalmente eu já estive nessa situação e conheço exatamente o amargor de tal experiência.

Já vivi o suficiente para poder observar mudanças de atitudes de certas igrejas contra os seus pastores. Eu sei o que é pregar com todo o coração para apenas contemplar faces rígidas e congeladas que exibem a determinação de apenas ignorar.

Eu sei o que é pregar ano após ano sem aumento de salário e sem a mínima segurança de trabalho. Eu já senti e tomei conhecimento de primeira mão da experiência de ter filhos que foram feridos pela igreja a qual servi com dedicação e integridade. Nos dias de hoje, confesso, não conheço muitos pais que desejam ver os seus filhos no ministério.

Há pouco tempo tomei conhecimento de um colega que disse: “Havia um certo presbítero que freqüentemente tinha o costume de gritar comigo. Ele ainda dizia que eu era a única pessoa com quem ele podia gritar. Ele disse que não podia gritar com a sua esposa ou com os seus clientes. Ele também não poderia gritar com os membros da congregação. Portanto, ele gritava comigo porque eu era o seu “empregado.”

De um outro pastor tomei conhecimento de que um líder em sua congregação lhe propôs uma “limpeza” na liderança para que ambos viessem a ficar livres para dirigir a igreja da maneira deles. Quando este pastor recusou a proposta, ele passou a ser perseguido a tal ponto que não viu outra maneira a não ser mudar de igreja.

Outro pastor conta que “...havia uma certa senhora que estava indignada pelo fato de eu ter sido eleito como pastor da sua igreja e não um certo pastor amigo da sua preferência. Ela resistiu à minha liderança desde o primeiro e até o último dia em que fiquei naquela igreja. A igreja cresceu e eu ganhei o amor e respeito do povo, mas ela continuou o seu trabalho e na surdina continuou espalhando veneno contra mim e o veneno persistiu até mesmo depois que deixei aquela igreja.”

Eu poderia contar outras histórias semelhantes a estas envolvendo o meu próprio ministério, porém, hoje, ao olhar para tras, creio que Deus estava me preparando para assistir e apoiar pastores com feridas de ministério. As vezes quando me deparo com certas situações, penso que teria sido melhor se ele tivesse escolhido uma outra pessoa para esse trabalho. Porém, ainda hoje eu olho para os pastores como nos meus tempos de menino. Meu maior desejo hoje é o de levantar os seus braços - numa atitude de apoio semelhante ao dado a Moisés por Ur e Arão diante do exército amalequita - e não apenas apertar as suas mãos.

Infelizmente muitos cristãos são totalmente ignorantes quanto às pressões que estão sobre o pastor e sobre sua família. Eles ficariam surpresos e chocados se tomassem conhecimento das batalhas que são travadas entre o pastor e os oficiais na igreja. Muitos cristãos nunca consideraram a expectativa irreal que está sobre um pastor, sobre suas necessidades emocionais, sobre suas necessidades financeiras. Eles (cristãos) não tem a mínima idéia do quão solitário um pastor pode se sentir no exercício do seu ministério.

No ministério sempre foi requerido sacrifício e os pastores os quais tenho oportunidade de aconselhar, estão dispostos a pagar o preço. Esses homens não estão buscando uma vida fácil. Por outro lado, eles não deveriam ser perseguidos por aquelas mesmas pessoas as quais eles estão buscando servir.
Um homem dedicado a Deus e à sua igreja deveria receber a confiança e apoio da igreja da mesma maneira que ele recebe o apoio e confiança da parte de Deus. Um pastor não deveria se questionar se a próxima reunião do conselho não seria a sua última. Um pastor deveria ter presbíteros que pudessem apoiá-lo e encorajá-lo ao invés de exibirem atitudes de ciúme e inveja. Ele deveria ser apreciado quando ao tomar uma atitude correta e ser ainda amado quando a sua atitude não for correta. Ele e sua família deveria ser tratado com a mesma graça que prega à sua igreja.

É grande o número de homens que estão deixando o ministério. Centenas só estão seguros “por um fio.” E o mais trágico é que eles não estão sendo destruídos pelo mundo, eles estão sendo abatidos pela própria igreja.

Aperte a mão do seu pastor. Dê a ele um grande abraço. Agradeça a Deus por ele. Demonstre a sua apreciação por ele. Sugestão: ofereça a ele um jantar especial de apreciação por tudo aquilo que ele tem sido para você e sua família. Escreva-lhe uma carta, ou apenas um simples cartão. Um gesto sincero de apreciação pode fazer uma grande diferença não apenas aqui e agora, mas por toda a eternidade. “Como ouvirão se não há quem pregue?”

Nélio DaSilva

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