Liderança em Ministério   

INDO EMBORA...MAS FICANDO!
Há poucos dias encontrei um colega que acabara de deixar o pastorado da sua igreja, após haver servido por 35 anos como pastor titular. Perguntei a ele sobre as implicações da sua decisão de freqüentar a sua própria congregação, depois de tantos anos de intimidade com ela? A resposta dele foi esta: “Várias pessoas me disseram que não ficasse, mas eu me decidi pelo contrário”. Talvez você esteja pensando: “Essa pessoa cometeu um erro”. É possível que você esteja certo. Algo dentro de mim me faz crer que esta não é, de fato, a melhor decisão, e eu tenho – penso eu - fortes argumentos contra ela. Implicações óbvias podem ocorrer, tais como – ao surgirem problemas membros talvez queiram se refugiar no “meu pastor”, ou no “pastor anterior”, que pode cair na tentação de não abdicar do controle e liderança da igreja. Tudo isso faz muito sentido. No entanto o pastor que mencionei decidiu permanecer como membro da igreja.

“E daí?...” - você pergunta - “O que isso tem a ver comigo? Eu nunca ficaria numa igreja depois de a haver pastoreado!” Talvez você não tenha que enfrentar essa mesma decisão. Contudo, à medida que se vão sucedendo a variedade de oportunidades e opções de ministério, o crescente custo emocional e financeiro com a mudança de uma cidade para outra, as implicações de filhos na escola ou na universidade, a questão de transição na carreira com a aproximação da meia-idade, enfim, todos esses elementos conglomerados, ou quem sabe alguns deles podem fazer com que você venha a considerar a decisão de mudar de ministério, mas só que permanecendo na mesma cidade. E aí você poderá se encontrar diante do dilema de decidir freqüentar ou não a igreja que pastoreou possivelmente por um longo tempo.

Se este for o caso, eis aqui alguns aspectos a considerar quando frente a tal decisão:

Quais são os aspectos positivos da decisão de permanecer?

1. Você poderá participar das realizações daquilo que começou.

Você poderá ter um tempo extra, agora desfrutando uma liberdade maior para promover algumas curas em relacionamentos estremecidos durante seu período como pastor.

2. Você será capaz de estabilizar a sua família.

Não haverá necessidade de mudar de escola ou de médico. Não haverá necessidade de novos ajustes e busca de novos amigos num novo lugar. É muito mais fácil lidar com apenas uma mudança do que com várias num curto período de tempo.

3. A sua família poderá manter a identidade com muito maior tranqüilidade.

O pastor que mencionei acima continuou ensinando no Departamento de Educação Cristã, e sua esposa prosseguiu seu ministério na igreja.

4. Os seus filhos já não sofrerão a pressão de serem chamados de “filhos do pastor”.

5. Você terá oportunidade de exemplificar a possibilidade da unidade em Cristo.

Quais são os aspectos negativos?

1. Você irá perceber que muitos de seus amigos não mais irão buscar a sua companhia.

A experiência minha – como também de outros líderes - testifica que quando pastor da igreja minha casa era o centro de muita movimentação, relacionada com seus membros. Eram muitos jantares, churrascos e farta recreação e comunhão com irmãos queridos. Após o rompimento formal com a igreja a relação fraterna caiu assustadoramente. Apesar de ser difícil perder esse alto nível de comunidade, a parte mais dolorida foi lidar com o sentimento de haver sido desertado por aqueles que chamava de amigos.

2. Você ficará fora do processo decisório da igreja.

As pessoas – principalmente as que ocupam posição de liderança – não mais irão buscar sua opinião sobre a direção e os rumos da igreja; você já não terá uma plataforma para iniciar e criar ministérios. Após muitos anos ocupando o centro do processo decisório, você será alguém “do lado de fora”.

3. Você irá descobrir que as pessoas não mais o chamarão de “meu pastor”.

De certa forma você não terá mais o peso de ter as pessoas o tempo todo à sua procura. Você já não terá que cumprir o horário marcado com pessoas para aconselhamento. Não receberá mais ligações em casa, tarde da noite. Não mais receberá aquelas críticas maledicentes. Ainda assim a perda da identidade não é algo fácil de lidar com ela. Tampouco é confortável lidar com o sentimento de perda de alguns valores preciosos. Por outro lado, você terá que aprender a conviver com um estranho sentimento de solidão.

4. Você irá perceber que muitos dos ministérios que você iniciou já não existem.

Neste ponto em particular a experiência de outros, e a minha, também testifica que a maior parte do ministério criado no tempo do exercício do seu e do meu pastorado se desvaneceu após o desligamento formal da igreja. Ficou neles e em mim um sentimento de frustração e dúvida sobre a qualidade de um trabalho que poderia talvez haver sido melhor implementado. É como se esses ministérios significassem tão-somente idéias e sonhos deles e meus, e não deles também.

5. Você terá grande dificuldade para encontrar uma nova função para você.

As dificuldades apontadas nos itens 1-4 serão as principais barreiras para que você possa lidar com sua nova identidade.

6. Você irá descobrir que não mais poderá expressar seus sentimentos e suas opiniões.

Em deferência ao novo pastor é necessário um cuidado extremo em relação a tudo que você disser. Fatalmente surgirão situações nas quais você irá discordar completamente da direção que a igreja estará tomando. Nessa ocasião você estará diante do dilema: “Será que expresso livremente minha opinião, me tornando possivelmente vulnerável à acusação de dissidente, ou apóio algo com que sob hipótese alguma não concordo?” Obviamente que esse não é um lugar nada confortável onde estar.

Algumas recomendações:

Se porventura você algum dia se encontrar diante da oportunidade de permanecer na igreja que você pastoreou, esteja aberto a isso. Contudo é imprescindível que primeiramente você responda às seguintes perguntas:

1. Eu realmente tenho o apoio do novo pastor?

2. Tenho o apoio da minha família?

3. Sinto de verdade o desejo pessoal de ficar?

Se a sua resposta for “SIM” a todas essas perguntas, considere a possibilidade de ficar.

Haverá certamente muitas pessoas que lhe dirão que não fique. Inclusive talvez você mesmo haja aconselhado outros a nãao ficarem. Mas meu amigo acima mencionado ficou, e quem sabe...talvez você também fique!

Nélio DaSilva

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