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O PARADIGMA DO AMOR
Estava há poucos dias ao telefone, conversando com a minha esposa - eu em Nova Jersey, ela em Orlando. Em virtude da transição que enfrentamos, temos falado praticamente todos os dias. Essa conversa recente me levou a uma profunda investigação na minha alma. Enquanto falávamos, entramos numa área onde – decididamente – não iríamos concordar com determinado ponto da nossa questão. Então, em dado momento eu simplesmente a interrompi de uma maneira abrupta, que muito a feriu. Desligamos o telefone, e imediatamente comecei a me perguntar a mim mesmo: Por que é tão fácil ferir as pessoas a quem mais amamos? Por que a intimidade traz essa dicotomia de amor e desprezo num paralelo tão próximo?

Tenho feito perguntas difíceis à minha alma em dias recentes, e uma das que mais me tem inquietado o coração tem sido a que diz respeito à minha relação com as pessoas, ainda que em diferentes níveis. Pelo fato de estar me sentindo tão freqüentemente vazio de amor, resolvi investigar a pessoa de Jesus. Fui então aos Evangelhos, e quando meus olhos se detiveram num dos mais ternos episódios que envolvem a sua figura, ali encontrei o Paradigma do Amor.

Lucas narra que ao se aproximarem da cidade de Naim – Jesus, seus discípulos, e mais a imensa multidão que o acompanhava – foram surpreendidos por um funeral.

Em dia subseqüente, dirigia-se Jesus a uma cidade chamada Naim, e iam com ele os seus discípulos e numerosa multidão. Como se aproximasse da porta da cidade, eis que saía o enterro do filho único de uma viúva; e grande multidão da cidade ia com ela. Vendo-a, o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores! Chegando-se, tocou o esquife e, parando os que o conduziam, disse: Jovem, eu te mando: levanta-te!
Sentou-se o que estivera morto e passou a falar; e Jesus o restituiu à sua mãe. Todos ficaram possuídos de temor e glorificavam a Deus, dizendo: Grande profeta se levantou entre nós; e: Deus visitou seu povo.
Esta notícia a respeito dele divulgou-se por toda a Judéia e por toda a circunvizinhança.
(Lucas 7:11-17)

Naim – pude descobrir numa breve pesquisa – está localizada num lindo vale no sudeste da Galiléia, onde a tribo judaica de Issacar se radicara. O Velho Testamento nos fala dessa terra como uma terra deliciosa (Gênesis 49:15). Em hebraico Naim significa agradável. No entanto para essa mãe, nesse dia em particular não havia absolutamente nada de agradável. O seu filho – seu único filho – havia falecido. E essa não era a primeira vez em que ela enterrava alguém muito querido. Ela era viúva. Para uma mulher judia, a maior alegria na vida era dar à luz a um filho; sua maior tristeza, perdê-lo. A perda do marido e do único filho significava para ela um sombrio e fatal veredicto: uma vida de pobreza. E para complicar ainda mais a situação desesperadora dessa pobre mulher, muito possivelmente ela estava vivendo sob o estigma da culpa, uma vez que o consenso geral era de que a morte prematura de uma criança significava punição de pecados. Possivelmente todo o povoado de Naim estava balançando a cabeça e se perguntando o que ela teria feito de tão horrendo, a ponto de perder praticamente tudo em sua existência.

É dentro desse contexto que Jesus aparece. E é sua atitude em meio a esse cenário desolador que me traz evidências do Paradigma do Amor. A primeira coisa que Jesus faz é olhar para aquela mulher. O texto diz: Vendo-a ...! O que chama a atenção é que Jesus não olha para a multidão ou para o filho morto. Pelo contrário, em meio ao encontro dessas duas multidões, a primeira que o acompanhava, e a segunda que acompanhava o funeral, ele direciona toda a sua atenção para essa mulher, e ao vê-la ... se compadeceu dela (13).

Jesus vê uma mulher que, como o filho, estava praticamente morta para a vida, em conseqüência de sua profunda dor. Cabe aqui observar que apesar de pensarmos na vida e na morte como duas categorias distintas, os judeus traziam consigo o conceito da entre-vida. No Velho Testamento, quando Noemi retorna a sua casa após sepultar o marido e dois filhos, ela diz às pessoas do seu povoado: Não me chameis Noemi [que significa agradável]; chamai-me Mara [que significa amargurada], porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso (Rute 1:20). Noemi estava viva, mas se sentia morta. Pois a viúva a que nos referimos, à semelhança de Noemi, estava viva-morta, divorciada da vida, sem luz, sem esperança. Jesus sabia disso muito bem, e toma para si o seu sofrimento: ... o Senhor se compadeceu dela. Ou seja, literalmente Jesus foi movido pela compaixão. Ele entra no mundo daquela mulher sentindo o que significava estar naquele lugar - lugar de dor, perda, abandono, desprezo e solidão.

Não chores - diz Jesus a ela. Ele experimenta a dor daquela mãe, contudo não se perde em meio à dor, apesar de se sentir tal qual ela estava se sentindo. Ao dizer “não chores” alguém pode alegar que Jesus estava interrompendo um processo natural de lamento. A psicologia moderna nos tem ensinado que não cabe a nós dizer a alguém como tem de se sentir. Mas não é mesmo verdade que quando a sua filha de 2 anos de idade cai e arranha o joelho você a abraça e lhe diz: “Filhinha, não chore! Daqui a pouco isso vai passar...”? Por que você diz isso? Você diz porque está consciente de que aquela dor realmente vai passar. Jesus sabia que aquela mulher – apesar de tanta dor, tantos infortúnios - tinha uma razão para ter uma nova esperança: seu fim de forma alguma iria ser de um interminável lamento.

O respeito pelos mortos levou a multidão que acompanhava Jesus a dar a “preferencial” do trânsito à viúva e seus acompanhantes, em direção ao cemitério. Contudo naquele momento Jesus interrompe o funeral, ao tocar suavemente no caixão. Não é mesmo verdade que a maioria de nós só poderia parar uma multidão daquela magnitude ao estendermos nossos braços para o ar e gritarmos a fim de sermos ouvidos? É interessante que pessoas com menos poder têm a tendência de exagerar seus movimentos, à semelhança de um adolescente que sai batendo a porta porque não se conforma com a ordem de estar de volta a casa num determinado horário, pois não aceita a imposição. No entanto, pessoas com grande poder parecem exibir sua força de uma maneira branda, porém tremendamente eficiente - tal como o César da antiga Roma, que com o simples gesto do seu polegar decide se alguém vai viver ou morrer... A ação de Jesus tem a poderosa majestade de um rei da antigüidade. Ele diz: Jovem, eu te mando: levanta-te! E agora, aquele que estava morto obedece a Jesus e começa a falar...

Lucas narra que ...todos ficaram possuídos de temor e glorificavam a Deus, dizendo: Grande profeta se levantou entre nós. Agora, com o acréscimo dos que seguiam o funeral, o tamanho da multidão praticamente dobrou. Todos os olhos passam a se concentrar em Jesus – afinal, apenas duas outras vezes um milagre como esse havia ocorrido. Esse milagre está cheio de incríveis possibilidades – contrato com a mais atraente publicadora, direitos cinematográficos, convite garantido nos mais badalados programas de TV!

Mas os olhos de Jesus estão fixos na viúva. Ele toma seu filho pelas mãos, ajuda-o a sair da cesta mortuária e o leva até ela. Ele não está preocupado consigo mesmo; não pensa em tirar vantagem daquela incrível manifestação de poder. Enfim, ele não se deixa perturbar por seu próprio milagre, mas se concentra inteiramente nas pessoas beneficiadas. Jesus só se importa ali com duas coisas: a necessidade física daquele rapaz e a carência emocional daquela mulher. Vejo neste episódio um incrível equilíbrio em Jesus: a demonstração da ternura a par com a demonstração do poder.

São freqüentes as vezes em que vemos líderes, pessoas dotadas de poder, agindo como verdadeiros tratores humanos: muita força, muita influência, uma autoridade quase que palpável, mas ausência total de sensibilidade. Por outro lado, é verdade também que vemos pessoas sensíveis mas sem nenhuma capacidade de liderança, conseqüentemente inoperantes. Entretanto, no Paradigma do Amor vemos a bondade adornada com a exuberância do poder.

Charles Spurgeon foi um pregador famoso, que viveu em Londres há mais de cem anos. Tremendamente usado por Deus – como eu e você teve muitas falhas. Sua esposa Susie conta que certa vez o acompanhou a um lugar onde ele deveria falar a uma enorme multidão. Ela narra:

Fomos juntos em direção a um enorme auditório, e eu lembro que à medida que chegávamos mais perto da escada que dava acesso a ele aumentava o número de pessoas ao nosso redor. Em poucos minutos ele (Spurgeon) simplesmente ignorou a minha existência; o peso da mensagem que estava prestes a pregar o absorveu completamente. Numa questão de segundos uma porta se abriu, ele entrou por ela e se encontrou com alguns líderes que o aguardavam para dar inicio à programação da noite. E eu fui deixada só por meu marido, sem a menor idéia do local aonde deveria me dirigir.

Isso lhe é familiar? Uma grande multidão, uma mulher assustada, e um apaixonado e inquieto pregador. Aqui temos o pregador que se esquece da mulher porque tem a mente completamente voltada para aquilo que vai dizer daí a poucos minutos. Jesus – por outro lado – é Aquele que se esquece do sermão em detrimento da pessoa; Spurgeon ignora a pessoa em detrimento do sermão. E as coisas ficam ainda piores:

No inicio me senti apenas confusa, mas depois fiquei irada. De volta a casa disse à minha mãe como estava me sentindo. Ela me fez ver que o meu marido não era um homem comum, que toda a vida dele estava dedicada a Deus, e eu jamais deveria fazer coisa alguma que pudesse refletir negativamente em seu ministério.

Spurgeon, depois de cumprir seu compromisso voltou para casa indignado, pelo fato de haver procurado em vão a esposa.

Minha mãe foi até ele e lhe contou como eu havia me sentido. E Spurgeon repetiu tudo aquilo que ela me dissera: que antes de qualquer coisa ele era um servo de Deus.

Você percebe como Deus é envolvido, literalmente arrastado a uma situação como essa? De alguma forma Deus havia se tornado a razão para que Spurgeon ignorasse a sua esposa. É interessante perceber que Deus não é revelado na vida de Spurgeon por meio desse incidente. Afinal de contas, o Senhor se transforma numa desculpa para a prática do desamor.

Eu e Spurgeon, neste aspecto temos muito em comum. Quando tudo o que Tereza necessitava de mim era ter meu ouvido atento, minha resposta foi “resolver” a questão interrompendo-a, ainda que não de uma maneira agressiva, mas suficientemente hostil a ponto de ousar lhe mandar a seguinte mensagem: “Eu tenho coisas muito mais importantes para tratar com Deus, do que me perder num diálogo que não está me levando a lugar nenhum...”

Tenho percebido que desfruto alguns atributos incríveis em minha vida, tal como o de “ressuscitar um filho morto”. No entanto não tenho investido num tempo dedicado a olhar, sentir e realmente caminhar junto, mas muito mais junto mesmo, do coração da Tereza. Na minha obsessiva dependência de total controle, estou sempre muito mais pronto a pensar no “próximo filho que tenho de ressuscitar” do que especificamente nela... Contudo, o que percebo é que todas as vezes que me concentro numa tarefa, e não na Tereza, ela percebe imediatamente a diferença da minha ação. Mas a ternura de Jesus me sugere uma forma menos “eficiente”, porém muito melhor de me relacionar, principalmente com aquelas pessoas que estão mais próximas do meu coração.

Quando aquele submarino russo explodiu matando mais de cem jovens marinheiros, o presidente Putin relutou demais em deixar suas férias para atender a essa tragédia de enormes conseqüências. Ficou ímplicito na atitude do presidente russo que a sua presença junto a familiares, ou seu apoio às equipes de resgate não iria reverter a escalada da tragédia. Putin tinha o poder, mas era destituído de amor. Imagine o que poderia haver acontecido no seu coração, se ele houvesse abraçado aquelas mães que haviam perdido seus filhos, alguns com apenas 18 anos de idade!... Imagine como teria sido imenso o seu crescimento, se ele apenas houvesse escutado e sentido de perto o coração dilacerado daquelas jovens esposas, tão prematuramente transformadas em viúvas!...

O Paradigma do Amor nos mostra como amar de forma genuína, e na seguinte escala: olhar, sentir, ajudar. Se tão-somente ajudarmos alguém, sem investir tempo em olhar para essa pessoa; sem sentir o que ela está sentindo, sem parar tudo que estamos fazendo para dar atenção a ela, para lhe ouvirmos as queixas e queixumes da alma tantas vezes assombrada e dolorida de decepções, solidão, incompreensão e sofrimento, nosso amor será muito banal, frio e egoísta. Se por outro lado olharmos e sentirmos, mas não fizermos o que é absolutamente necessário fazer, não pararmos mesmo em meio à pressa ou ao cansaço, nosso amor será algo de muito pouco ou nenhum valor. O Paradigma do Amor nos ensina que o genuíno amor realiza as três coisas – sejam quais forem as circunstâncias. Amar sem renúncia e sem esforço é muito fácil e banal; lance fora esse tipo nada cristão de amor, que só serve para afastar de Deus os carentes!

Nélio DaSilva

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