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SEM OLHAR PARA TRáS
Poucas histórias são tão chocantes e surpreendentes quanto à narrativa bíblica da destruição de Sodoma e Gomora, onde inclui a afirmação de que a mulher de Ló olhou para trás e se transformou numa estátua de sal. A minha inquietação com essa história não é quanto à aceitação da veracidade dos fatos ali narrados, mas com algo muito mais subjetivo. O que me incomoda é uma postura de Ló que possui reflexo na forma como muitos de nós lidamos com a vida: a sua dificuldade em sair, em deixar aquela cidade para trás. Sodoma na vida de Ló e sua família, não lhe oferecia segurança. Não lhe dava acolhimento, pois os tratava como forasteiros. Não lhe tinha respeito, pois eram capazes de se lançarem com violência contra eles. Ali Ló foi capaz de cometer o seu maior desatino pondo em risco a integridade física e moral de suas duas únicas filhas. Porém, quando tiveram a oportunidade de sair daquela situação se mostraram lentos e com dificuldades, o que ficou cristalizado no comportamento da mulher de Ló.

Essa história expõe essa estranha possibilidade de nossa condição humana de nos deixar oprimir, de nos deixar condicionar em certas situações, de ter dificuldade de fechar o ciclo atrás de nós e ir para frente sem olhar para trás. A questão que a narrativa dessa história levanta é: Por que demoramos tanto para quebrar certos jugos de sobre nossas vidas? Por que ficamos olhando para trás, paralisados e petrificados por coisas que já não nos dão prazer de vida?

Primeiro, porque, muitas vezes, o que hoje é opressão já foi um dia lugar de sonhos e esperança. Ló foi para Sodoma depois de um desentendimento entre os pastores de seu rebanho e os pastores do rebanho do seu tio Abraão. E para que não houvesse mais desentendimento entre eles Abraão propôs que se separassem e lhe diz: Se você for para a direita eu vou para a esquerda e se for para a esquerda eu vou para direita. “Então, levantou Ló os olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada, antes de haver o Senhor destruído Sodoma e Gomora, como o jardim do Senhor, como a terra do Egito, como quem vai para Zoar.

Então Ló escolheu para si toda a campina do Jordão e partiu para o Oriente” (Gn 13). Foi cheio de esperança e sonhos, movido por um olhar de beleza e encantamento que Ló vai parar em Sodoma. Não é fácil admitir que o sonho acabou, que a esperança frustrou. Ficamos presos nesses lugares de opressão porque nos falta coragem de encarar as decepções e viver com elas e para além delas, por isso, estamos sempre dando um tempo a mais, protelando as nossas decisões na infantil expectativa, de quem sabe, amanhã aconteça o que tanto almejamos. É difícil sair, nos sentirmos livres para irmos para frente porque para nos reorganizarmos precisamos antes de nos desfazermos, de nos desestruturarmos, reconhecer em nossa consciência que uma parte da vida se perdeu ali. Segundo, porque mesmo ruim, de alguma forma aquela é a vida que conhecemos.

A narrativa da história nos diz que Ló estava à porta da cidade quando os anjos chegaram. A porta da cidade era o lugar onde os negócios eram feitos, as transações comerciais aconteciam. Diz também, que as filhas de Ló tinham noivos naquele lugar. Jesus descreve a situação daqueles diais de Ló da seguinte forma: “Comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam” (Lc 17:28). Ou seja, mesmo sendo um lugar de opressão é ali que se encontram os símbolos, os significados e valores de nossa vida. Mal ou bem algumas coisas cresceram naquele lugar e não é fácil perde-las. O que nos paralisa é essa tensão entre o concreto e a probabilidade, entre a realidade que já conhecemos e sabemos lidar e o novo, o desconhecido, o imprevisível, o futuro aberto que não sabemos se podemos responder à altura. Lya Luft diz o seguinte: “Sair do estabelecido e habitual, mesmo ruim, é sempre perturbador. O desejo de ser mais livre é forte, porém, o medo de sair da situação conhecida, por pior que seja, poder ser maior ainda”. E, é isso que nos aprisiona nessa estranha postura para com a vida de irmos em frente, mas olhando para trás.

Mudanças sempre produzem ansiedade, mas são necessárias, porque, muitas vezes, ficar onde se está pode significar a morte. Os anjos dizem a Ló, sai deste lugar e salva a tua vida. Para romper com os jugos da opressão: Primeiro, precisamos crer que mais do que força de vontade, do que coragem, do que disposição, que a vida acontece conduzida por uma outra força e disposição que irrompe e nos empurra para fora dos lugares que não sabemos sair.

Quando viram a morosidade e dificuldade de Ló, os anjos os pegaram pelas mãos e os puseram fora da cidade (Gn 19:16). Não estamos sozinhos na vida, precisamos aprender a nos deixar conduzir por essa estranha mão invisível, mas real e presente que nos dá suporte e segurança para nos movermos e agirmos. Segundo, precisamos romper com as opressões dentro do tempo e das condições que podemos suportar. O que faz com que a vida vá de uma opressão para outra, de uma situação de amargura para outra, é não estarmos prontos, não amadurecermos o tempo necessário à nossa decisão e nem pesarmos as condições que tínhamos para viver o novo que se apresenta diante de nós. A narrativa dessa história diz que os anjos respeitaram o tempo de Ló para lidar com a situação: “Apressa-te, pois nada podemos fazer enquanto não estiveres seguro.” E respeitaram as condições em que Ló acreditava ser necessária para viver o novo, pos disse Ló a eles e concordaram: “Assim não, Senhor meu! Não posso escapar no monte, pois receio que o mal me apanhe, e eu morra. Eis aí uma cidade perto para qual eu posso fugir. Permite que eu fuja para lá.” Quando não nos sentimos prontos, seguros, quando não acreditamos que temos chance e condição naquilo que está diante de nós é muito difícil ir em frete sem olhar para trás. Porém, viver é a busca constante de decifrar o enigma nosso, de descobrir qual é o nosso propósito, o nosso real projeto na vida. Por isso, somos todos, muito mais, naturalmente, caminhantes e buscantes, do que seres paralisados na opressão.

Daniel Costa é pastor da Igreja Presbiteriana Betaninha – Niteroi, RJ

Daniel Costa

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