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INFAME MISTURA NO PúLPITO EVANGéLICO
"Política e religião não se misturam!” — essa é, talvez, uma das frases mais ouvidas nos últimos dias no cenário eleitoral. Dita por políticos, soa superficial e oportunista, pois tenta esconder aquilo que no fundo revela: a preocupação com adversários que se apresentam como religiosos, tentando conquistar eleitores para os quais a questão religiosa é decisiva. Repetida pela mídia, ou pelo senso comum, revela certa ingenuidade, ao não se perceber quão mais complexa é essa relação.

Mistura é um processo no qual pelo menos dois ingredientes se encontram, havendo como conseqüência perda de identidade de ambos, pois resulta num produto final que não é integralmente nem um nem outro. Esta simples definição deve nos deixar em alerta frente à propalada mistura entre religião e política, pois o resultado dela já se faz revelar na figura de religiosos atuando como políticos (em alguns casos com os piores traços da política nacional), e políticos assumindo uma versão religiosa (em alguns exemplos, com o que há de pior na religiosidade brasileira).

Um dos mais fortes ingredientes dessa mistura é hoje a Igreja Evangélica. Ela se tornou tanto alvo como agente desse caldo político-religioso. É alvo na medida em que, diante do seu crescimento, os políticos perceberam que não mais poderiam desprezar este segmento. Torna-se agente, pois tem hoje uma presença cada vez mais viva nos diversos níveis políticos do país, demonstrando um forte apetite por avançar nos centros de decisão pública.

Percebo o fenômeno e o avalio com profunda preocupação. Minha inquietação é porque vislumbro sérios prejuízos decorrentes desta mistura para a Igreja Evangélica brasileira. Dois deles, em especial, chamam-me a atenção.

O primeiro se relaciona com o divórcio fatal entre fé e ética, infelizmente já instalado na vivência de alguns segmentos da Igreja Evangélica, e tornado ainda mais explícito nesta infeliz mistura. Exemplos desse divórcio aparecem na transformação da comunidade de fé em curral eleitoral de políticos evangélicos ou evangélicos políticos, promovendo um verdadeiro mercado eleitoral, no qual se comparam e se vendem votos (d)escancaradamente; no despudor com que se mente a fim de preservar e/ou alavancar as mais estranhas alianças; na falta de integridade no mínimo esperado quanto à declaração de bens, tentando esconder dos olhos do eleitor a real situação econômica patrimonial.

O segundo aspecto é conseqüência: trata-se da manipulação do discurso religioso visando à obtenção de votos. Vejo que em lugar de um debate promotor de uma consciência política, o que temos é o uso indevido do púlpito evangélico para demonizar o candidato adversário e abençoar em nome de Deus o aliado. Promove-se assim uma espiritualização dos votos, deixando de lado aspectos importantíssimos na escolha dos candidatos.

Ora, tal comportamento, da parte dos políticos de plantão, prontos a vestir qualquer roupagem no processo eleitoral, já era de se esperar. Constatar no entanto a mesma atitude nos chamados políticos apresentados como evangélicos é de acender com toda a intensidade as chamas da indignação.

O mais grave e lamentável neste quadro está no fato de a Igreja Evangélica estar perdendo a oportunidade de contribuir vividamente para a cena política. Ela só poderia fazer isso se rejeitasse a mistura e propusesse o diálogo.

Explico: diferentemente da mistura, no diálogo não se perde a identidade, mas se estabelece uma relação entre no mínimo dois pólos, na qual ambos são mutuamente enriquecidos.

Misturar religião e política é uma insensatez, ou uma artimanha maldosa, mas fazê-las dialogar é um caminho divino. Diálogo e não mistura, sim, pois já é hora de superar a ingênua percepção de que essas realidades não se tocam. Elas precisam é se encontrar.

Não fosse colaboradora nessa infame mistura, a Igreja Evangélica poderia ser a ponte capaz de, à luz de uma ética fundamentada na fé, influenciar o quadro político. E a política, no seu sentido mais original de exercício da cidadania, oferecer à comunidade de fé o caminho para uma atuação transformadora deste país.

Eduardo Rosa Pedreira
Pastor da Comunidade Cristã da Barra da Tijuca
Rio de Janeiro

Eduardo Rosa Pedreira

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