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PASTORES SEM PASTOREIO
Quantos se lembram de Jimmy Swaggart e seu belíssimo programa de televisão que ia ao ar nos sábados pela manhã? Eu particularmente achava maravilhoso aquele programa. Quantas vidas conheceram Jesus Cristo através dele, tanto no Brasil quanto no mundo!

Contudo, Swaggart caiu em pecado, sendo acusado de adultério. O grande pregador ficou desacreditado. Muitos tiveram a sua fé duramente abalada e outros chegaram a abandoná-la. Não quero falar acerca da fé destas pessoas, se eram ou não salvas em Cristo, mas desejo refletir acerca da pergunta que não quer calar: “Por que pastores caem”?

Se olharmos para a Igreja Cristã, veremos grande número de pastores e líderes que caíram. Várias causas existem para a queda destes homens de Deus, porém, a que eu julgo ser a mais comum é a falta de pastoreio dos pastores.

Não sei se você já parou para pensar, mas o pastor é um tipo de cristão que não é pastoreado. A Igreja existe para que os crentes possam edificar-se mutuamente através do exercício dos dons espirituais, como parte da sua vida de adoração. No contexto da Igreja, Deus capacitou pessoas para serem os facilitadores deste processo, estes são os pastores e líderes (Ef 4.11-12). Portanto, estes são responsáveis por ensinar, admoestar, exortar, corrigir e consolar a Igreja. Mas, os pastores não possuem ninguém para fazer isto com eles e por eles.

A função pastoral é de extrema necessidade para que a Igreja possa ser Igreja, e para que cada crente possa desenvolver-se como tal. As Escrituras sempre chamam a atenção dos pastores para não esquecerem a sua função em relação à Igreja e as pessoas (1Pe 5.1-4).

O pastor, porém, não é um ser sobrenatural ou superevoluído. Os pastores são seres humanos como quaisquer outros. Têm problemas pessoais, conjugais, financeiros, ficam doentes, entram em depressão e, pasmem, até morrem. Poderíamos parafrasear Tiago, dizendo: “O pastor é homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos...”.

É certo que alguns pastores ignoram esta verdade. Julgam ser super-heróis, cheios de poder e capacidades especiais, que com um balançar de capa, resolvem todos os problemas. Parte deste tipo de pensamento, foi criado por meio da Igreja, afinal, para muitos crentes, pastores nem sequer pecam. Infelizmente, alguns compraram esta idéia, vivem como se não pecassem e fizeram discípulos com este pensamento.

Não é difícil encontrar pastores que se julgam acima do bem e do mal, quando não, acima de Deus. Alguns mais “humildes” afirmam que Deus se assenta no vaso sanitário do banheiro de suas casas, enquanto fazem a barba, a fim de baterem papo durante o barbear.

Muitos pastores foram ensinados a manterem o status de infalíveis. Por esta causa, várias gerações de pastores auto-suficientes e enganados foram colocados à serviço da Igreja de Cristo. Uma vez que não precisavam de ninguém, tais pastores faziam o que lhes dava na telha, usando ainda a seu favor, afirmações como: "Não se levante contra o UNGIDO do Senhor"!

Os pastores passaram a pertencer a um nível mais alto de espiritualidade dentro da Igreja. Porém, isto vai contra a Palavra de Deus. A Igreja acabou voltando para a Idade Média, instituindo novamente o clero e o laicato. O que a Bíblia condena e o que os reformadores lutaram para tirar da Igreja, agora ganhou uma nova roupagem evangélica.

Isto tem causado grandes feridas na vida da Igreja. Quantas denominações evangélicas surgiram por causa de um “Deus me revelou”, muitas vezes pronunciado por um pastor revoltado contra uma liderança que ousou questioná-lo?

Os pastores não são pastoreados como cristãos, por isso, muitas vezes estão livres para fazerem o que bem entendem. Os pastores não possuem ninguém a quem devem prestar contas de seus atos.

Talvez alguns possam dizer: "Você está enganado! Existem as convenções, os presbitérios, os colégios episcopais, etc.". Estou cansado de ver pastores sendo exortados por estas instituições, algumas vezes até sendo disciplinados. E, por esta causa, rompem com suas denominações e criam as suas próprias igrejas, onde são os senhores absolutos e donos inquestionáveis da verdade.

É necessário pensarmos que, quando o pastor cai, é porque lá atrás não havia alguém para orientá-lo ou para ele prestar contas.

Todo pecado começa pequeno. Primeiro, o pastor deixa de entregar o seu dízimo, depois pega dois reais no gazofilácio durante a semana, depois, cinqüenta reais e depois dá o golpe na conta da Igreja e foge. Outros pecados também seguem este padrão.

Precisamos criar uma nova mentalidade pastoral, onde pastores sejam mais humanos e menos super-heróis; mais conscientes da sua finitude e menos “santos” aos seus próprios olhos; mais cristãos e menos profissionais da fé. Precisamos de homens que encarem a missão de mentorear os jovens que atendem ao chamado pastoral, a fim de ensiná-los a pastorear com sabedoria, ao invés de enxergá-los como concorrentes em potencial.

Creio que se Swaggart e outros grande pastores que caíram, fossem pastoreados de perto, talvez as suas quedas poderiam ter sido evitadas, bem como as feridas provocadas por elas.


Gladston Pereira da Cunha é pastor da Igreja Presbiteriana de Marataízes (ES) e mestrando em Teologia Pastoral pelo Mackenzie (SP). E-mail: revgladston@bol.com.br

Gladston Pereira da Cunha

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