Artigos   

AS NOSSAS BABILôNIAS
Recentemente passei por mais um desapontamento com a Igreja Evangélica neste país. Eu precisava obter um alvará para o funcionamento do escritório de nossa missão e, para isto, reuni-me com outros colegas da Sepal, com o assessor do secretário de governo em nossa cidade.

Depois de termos sido muito bem recebidos e explicado, àquele representante do poder municipal, exatamente do que precisávamos, ouvimos dele a seguinte frase: “Hoje em dia as igrejas evangélicas têm nos dado mais trabalho do que os bares da cidade.”

Num primeiro instante, não consegui compreender a amplitude do que acabara de ouvir. Entretanto, não precisei do que mais alguns segundos para entender tudo claramente, pois aquele assessor complementou com algo estarrecedor: “Toda semana vem alguém ao meu gabinete para reclamar de alguma igreja. Eles não suportam o barulho das músicas e das orações e, também, ficam indignados porque muitos estacionam seus carros em lugares proibidos.”

Ao sair daquele lugar fiquei perguntando a mim mesmo: “Você sabia que é parte desta mesma igreja, que tem causado tantos escândalos e ganhado a antipatia daqueles que vivem ao redor?”
Comecei a imaginar como tudo isso cheirava muito mais à Babilônia do que a Reino de Deus. Eu estava literalmente chocado! Meu próximo passo foi parar um pouco para refletir sobre tudo aquilo.

Vieram então, à minha mente, as palavras ditas por Nabucodonosor quando, um dia, passeava pelos corredores de seu palácio: “Acaso não é esta a grande Babilônia que eu construí como capital do meu reino, com o meu enorme poder e para a glória de minha majestade?” (Dn 4.30).
Pensei comigo mesmo: “Este é o sentimento de muitos que lideram nossas igrejas e que têm gerado toda sorte de ira, frustração e ódio por parte dos infelizes que moram ao redor de nossos templos.

A meu ver, os fatores que geram este tipo de comportamento nefasto estão fundamentados em 3 pilares. O primeiro deles é o sentimento de posse. Muitos de nós tornamo-nos os legítimos construtores e “proprietários” daquilo que ousamos chamar de “Igreja de Jesus”. Um grande paradoxo, para dizer o mínimo. Mas isso não é novidade. Nabucodonosor também assumiu este comportamento quando imaginou que a Babilônia lhe pertencia.

Em seguida, transparece com enorme desenvoltura, o sentimento de poder. Quem tem mais poder? O pobre vizinho das nossas igrejas ou o pastor? Evidentemente, o pastor, muitas vezes, imagina ter todo o poder para fazer daquele espaço geográfico que ocupa, o que ele bem entender. Se existe ao redor do templo uma criança precisando adormecer, ou um idoso enfermo, ou um casal que trabalhou durante toda a semana e quer ter um tempo de silêncio, isso não importa. Afinal, o pastor tem o poder para aumentar e abaixar as caixas de som e para gritar diante dos microfones quando julgar necessário e, em alguns casos, até mesmo levar sua audiência ao delírio coletivo. Com Nabucodonosor e a sua Babilônia aconteceu o mesmo. Ele chegou a dizer que detinha “enorme poder”.

Finalmente, transparece para mim algo ainda mais terrível: o sentimento de arrogância. Aquele alto funcionário do governo de minha cidade disse: “Alguns destes pastores dizem que nada lhes impedirá de continuarem agindo desta maneira, mesmo que os vizinhos venham a protestar”. Puro sentimento de arrogância e de soberba! Nabucodonosor afirmou que a Babilônia lhe servia também de motivo de muito orgulho. Na verdade ele foi mais sincero que muitos de nós, pois disse que aquela cidade representava a “glória de sua majestade”.

Isto nos leva a concluir que, em lugar de expandirmos o Reino de Deus, conquistando o respeito e a simpatia das pessoas, através de igrejas saudáveis e missionárias, em muitos casos, infelizmente, estamos construindo nossas Babilônias e ganhando a antipatia de muitos. Pior. Estamos sendo reconhecidos como um povo arrogante e que não se submete às leis. Resta a nós declarar perante o Cordeiro: “Senhor Jesus, tem misericórdia de nós!”

Oswaldo Prado

Voltar