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OLá, TEM ALGUéM EM CASA?
“Você nunca me escuta!” Estas palavras foram ditas por Andréa, entre lágrimas e soluços. Repentinamente senti-me como se estivesse sem equilíbrio. O que é que está acontecendo? Já faz 15 anos que sou o pai de Andréa, e 8 que sou psiquiatra. Fui especialmente treinado para ser um ouvinte profissional que pode ler sinais não verbais, e a detectar as entrelinhas, prestando toda a atenção, para depois oferecer minha resposta empática.

Então era natural que eu fosse tentado a explicar à minha filha que ela estava enganada na sua acusação. Andréa era uma adolescente. Ela certamente não poderia ser compreendida por seu pai. Mas, excepcionalmente fiquei, calado e deixei que Andréa pusesse para fora o que tinha a dizer. Lentamente sua historia se formulou, pontilhada de pequenos soluços de angústia. Ela descreveu a sua tristeza e seu sentimento de inutilidade. Se sentia abandonada por seus amigos e rejeitada por mim. Disse até, que às vezes, tinha vontade de dar um fim na sua vida.

Queria fazer Andréa parar de falar, para poder logo lhe dizer que ela não tinha razão de sentir-se como ela se sentia. Estava sendo muito difícil ouvi-la, mas estava determinado a escutar tudo que ela tinha a dizer. Quando terminou, disse-lhe a respeito da minha preocupação, e a segurando-a em meus braços.

Após alguns minutos, as lágrimas pararam. - Obrigado, Papai, tudo vai ficar bem., disse Andréa. Depois, com um pequeno sorriso ela acrescentou: - “E obrigado por não me fazer um sermão.”
Este incidente me sacudiu. Ele deixou claro que existia um abismo entre minha maneira “profissional” de ouvir e o que eu fazia em minha própria casa. Era capaz de passar seis ou sete horas ouvindo eficientemente as pessoas envolvidas em nosso ministério de aconselhamento, mas ao chegar em casa , a poucos metros de distância , estar completamente distante distraído e surdo para os meus próprios familiares.
Minha história talvez não o surpreenda. Talvez até se pareça com a sua. Em minha prática de aconselhamento, tenho ouvido narrativas semelhantes a esta dos lábios de centenas de pastores e suas esposas.

POR QUE NÃO OUVIMOS

Depois de ouvir pessoas infelizes, queixosas e exigentes o dia todo” disse-me um pastor sinto-me desgastado e não quero ouvir mais nenhuma palavra de ninguém.

Não podemos negar ou escapar à realidade do cansaço. Ouvir eficientemente por muitas horas consome uma energia Como um pastor disse recentemente: - sinto-me totalmente desgastado quando tenho de me relacionar com um grupo de pessoas por 8 horas. Eu preferiria estar rachando lenha do que fazer isso. Então quando chego em casa e vejo minha esposa Joyce e meus três filhos, todos desejando a minha atenção, eu tenho vontade de correr!....

E ele corre mesmo, concorda sua esposa. Diretamente para a TV ou seu computador. Talvez nem mais o vejamos pelo resto da noite!
Ouço outro tipo de frustração bastante comum entre os pastores, dizem tentar ouvir suas esposas, presumindo que desejam soluções para problemas ou opiniões - Nada do que os maridos dizem parece que ajuda. Não ouço minha mulher, um dos pastores admitiu, porque não tenho a menor idéia do que ela quer.

Joe, pastor que foi preletor num retiro recente, sem dúvida falou por muitos outros homens quando disse: - Sou um solucionador de problemas. Sou pago para isso. Empregados e membros da igreja me procuram para lhes aconselhar. Eles me contam os seus problemas e lhes dou as respostas, e eles as aceitam, me agradecem profusamente e deixam a sala.
Mas, acrescentou: - Quando chego em casa, e Ann começa a falar, tento descobrir qual é o problema. Quando penso que descobri do que se trata, dou-lhe minha solução, ou mostro-lhe por que ela não deveria se sentir do modo como se sente. Mas o que lhe digo não é aceito e logo começo a ficar muito frustrado: “Bem, você me perguntou o que acho, não foi? Disse-lhe o que acho e agora você não ficou contente. O que você quer que diga?”.

Posso lhes assegurar que Ann saiu tão frustrada quanto Joe.
A noção de que ouvir com atenção é a solução, deixa muitos homens confusos. Que bem pode fazer só ouvir? Entretanto a mensagem que ouço de minha esposa, Melissa, é a mesma que ouvi de Andréa e de todas as mulheres dos grupos de aconselhamento que dirijo. Quando uma mulher percebe que está sendo ouvida, se sente valorizada!

Outra razão pela qual pastores não são bons ouvintes em casa, é que eles não querem ser criticados. Um marido que arrasta a sua carcassa cansada pela porta da frente pode estar sentindo-se arrebentado depois das lutas do dia. Quando sua família o saúda com uma lista de queixas, ele entra em ebulição. Um pastor confessou-me que em muitas tardes tinha azia ao voltar para casa. Freqüentemente fazia um retorno para fazer uma visita ao hospital quando já estava a apenas uma quadra da sua casa. Ele achava horroroso ter de enfrentar uma metralhada de críticas que, bem sabia, aguardava-o em casa.

Não é surpresa que, ao evitar de ir para casa, parecia como que o abandono da família. Quando finalmente voltava para casa, já não o aguardava ali nenhum carinho ou admiração, e a sua expectativa de que seria recebido com ira, geralmente se concretizava. A família estava realmente presa a um circulo vicioso.

APRENDENDO A REESTABELECER CONTATO

A boa notícia é que você não precisa permanecer preso nestas espirais. Compreendi que podia levar meus ouvidos comigo para casa, naquela pequena caminhada do escritório até lá. Alguns ajustes no meu comportamento e atitude ajudaram muito.

A primeira mudança começa cada dia, na porta do meu escritório, lugar onde exerço o meu ministério. Quando fecho-a atrás de mim para ir para casa, conscientemente escolho deixar os cuidados do dia lá dentro. Descobri que eles estarão lá, fielmente me esperando, quando volto na manhã seguinte.

A Segunda atitude, é mentalmente mudar as engrenagens do “terapeuta Louis” para “Louis, o marido e pai”. Faço isso primeiramente olhando para as Montanhas Rochosas nas proximidades e agradecendo a Deus por toda a graça que cobre a minha vida. Em seguida tento me lembrar de alguma qualidade positiva a respeito de Melissa e de nossos três filhos, como a criatividade ou o senso de humor peculiares. Finalmente reflito: como o dia deles deve ter sido? Penso em maneiras possam mostrar meu interesse em suas vidas.

Nesta altura, já estou chegando em casa e num estado mental completamente diferente.

Tenho de admitir que recebo ajuda muito importante de Melissa. Ela reconhece as minhas necessidades quando chego em casa, vindo do trabalho. Quando os nossos filhos ainda viviam em casa, até eles aprenderam a me dar algum espaço e tempo para me desafogar. Compreendia que precisava de amor e afeição, e que eu não iria desaparecer. Assim, geralmente podia saber que teria um período de calma antes que eles apresentassem suas próprias necessidades.
Creio que agora você estará pensando com os seus botões, “Pensava que este artigo fosse sobre como ouvir!”. De fato, ele é sobre isso! O passo mais importante para se poder ouvir bem é se conscientizar a respeito das barreiras e do aprendizado, para se poder criar o ambiente mais amistoso possível. O resto é apenas o seu esforço para realizá-lo. Estas diretrizes o poderão ajudar:

1. Avalie o seu estilo de ouvir. Uma vez que você reconheça as várias maneiras de ouvir (e aquelas que pretende usar), você estará melhor preparado para mudar as engrenagens entre o escritório e o lar. No livro “Connecting With Self and Others” (Conenctando consigo mesmo e com os outros) os autores Sherrod Miller, Daniel Wackman, Elam Nunally e Phyllis Miller identificam três estilos diferentes de ouvir:

• Audição Persuasiva que acontece quando você ouve só o suficiente para formular a sua resposta e então interrompe a conversa para poder controlar a situação. Esta foi a minha maneira típica de tratar meus filhos. Andréa estava certa.
• Audição Diretiva, na qual você busca esclarecer a informação conduzindo a outra pessoa através de suas perguntas escolhidas. (Pastores, médicos e professores freqüentemente fazem perguntas cujas respostas darão as informações que desejam saber.
• Audição com Atenção tem o propósito de descobrir as idéias ou sentimentos da outra pessoa. Você encoraja a pesoa sem dirigir o rumo da conversa. (Esta maneira é excelente para estabelecer contato e compreensão. Raramente é usada mas é um alívio poder experimentá-la.)

2. Exercite-se em prestar toda a atenção. Deixe o jornal de lado, desligue a televisão (não tire o som apenas!) saia do computador (estou informado de que isto é possível). Em seguida, encare a outra pessoa de frente, faça contato com os olhos e talvez diga a ela que você está contente de ver que ela pode passar algum tempo com você. Até mesmo um toque físico faz bem.

A parte mais difícil disto parece que está em nossas atitudes. Lembro-me da sabedoria de um fã de esportes que disse: - Quando estou em casa e há um jogo importante na TV, gosto de me focalizar totalmente no jogo. Mas, finalmente, cheguei a conclusão de que já vi tudo que se passa ali: as grandes bolas, os passes, dribles e tiradas. Na verdade o grande jogo que estava perdendo era o que acontecia no meu próprio casamento e na minha família. Isto facilitou muito para que eu desligasse a televisão mais do que depressa. Depois de uma pausa e sorrindo ele disse: Além disso, quando o jogo é mesmo excepcional ele é re-transmitido mais de dez vezes depois na ESPN (canal de esportes)...”

Se você acha que não pode mesmo ser interrompido, numa situação mais rara do que queremos admitir, você pode dizer - Aguarde-me por meia hora e depois conversaremos com calma.

3. Aprenda a fechar o ciclo de comunicação. Verifique com freqüência com a outra pessoa, se você entendeu corretamente o que ela passou para você - Um método eficiente é parafrasear o que ela disse.
Assusto-me em verificar como minhas interpretações, às vezes, podem estar distorcidas. Naturalmente isso ocorre porque a pessoa provavelmente não expressou corretamente o que ela queria dizer, mas aprendi que mostrando este fato para ela só piora o relacionamento. - E por que voce já não disse isso antes..? Talvez você se sinta sem jeito ao tentar se certificar de que está entendendo e de que ouviu corretamente, mas comer com garfo também deve ter sido sem jeito a princípio.

4. Assuma a responsabilidade por sua reação. Quando você realmente ouve a outra pessoa, isto até certo ponto afetará você. Você escuta e interpreta as palavras e os sinais não verbais. Dependendo do contexto e do relacionamento, você poderá interpretar mal a mensagem. Em nossos grupos de aconselhamento temos visto muitos indivíduos ouvirem uma mensagem negativa, enquanto os outros todos na sala ouvem uma positiva.

Quaisquer que sejam suas interpretações, você pode escolher como vai reagir. Compreendendo este processo pode até ajudá-lo a se comunicar bem com sua esposa também.

Podemos ter uma “dica” do teólogo Paul Tournier, que contou de que modo aprendeu a ouvir sua esposa, Nelly, e a permanecer em silencio diante de Deus, no seu relacionamento conjugal: "Nelly tinha escrito - Você sabe que é meu professor, meu médico, meu psiquiatra e até meu pastor, mas você não é meu marido."

Levei meses para ver e compreender isto, e anos para ver o significado total disto. Até minha religião consistia de idéias a respeito de Deus, Jesus, o homem e salvação. Quanto a minha esposa, eu fazia sermões para ela, dava-lhe aulas de psicologia, filosofia e tudo mais... mas sentimentos, ansiedades e desesperos, não sabia compartilhar. Tudo isto aprofundava cada vez mais o nosso longo silêncio. Mas esta conscientização transformou o nosso relacionamento! Eu aprendi realmente a ouvir a minha esposa.

É irônico, não é mesmo? Pastores e conselheiros são treinados para ouvir com atenção a qualquer um que entre pelas portas do escritório. Mas, freqüentemente, a melhor maneira de ouvir nossas famílias é abandonar o profissionalismo quando saímos porta afora e nos dirigimos para casa.

Louis McBurney

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