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EVANGELIZAçãO NO MERCADO PóS MODERNO
Um dos meus melhores amigos — que não se considera cristão — me disse que às vezes se surpreende pensando que, se Deus existe, não deve gostar da banalização que é feita do seu nome. Um conhecido colunista da mais lida revista semanal do país reclamou da superexposição do sagrado em nossa cultura. “Menos deus, por favor” foi o seu desabafo.1 É um alerta. Não é à-toa que o segmento dos não-religiosos está entre os que mais cresceram na década de 90.

Qualquer reflexão ou ação evangelizadora, transcultural ou não, deve levar em consideração as mudanças que estão acontecendo ao nosso redor e que afetam a todos nós, assim como as instituições, sejam elas eclesiásticas ou não, nas quais estamos envolvidos.

Vivemos num mundo de extremas transformações, que afetam todos os aspectos da nossa existência. Temas como pós-modernidade e globalização podem não evocar sentimentos muito confortáveis. Mas não podemos ignorar os seus efeitos, se desejamos nos manter responsavelmente engajados no projeto de levar o evangelho até os confins da terra.

A influência que este momento extraordinário exerce sobre o modo como vivemos, trabalhamos e comunicamos as boas novas de Jesus Cristo representa um desafio singular para a Igreja. Mais do que isso, está reestruturando a vida daqueles que pretendemos alcançar com o evangelho, assim como as instituições formadoras de opinião.

Neste breve artigo não podemos deixar de fazer alguns registros que sirvam de parâmetro para nossa reflexão sobre a evangelização. Partimos do pressuposto de que as forças da pós-modernidade e globalização, por assim dizer, estão presentes na vida política, tecnológica, cultural, econômica e religiosa; e essas forças afetam direta ou indiretamente sistemas políticos, tradições, valores, formas de pensar e agir, gostos — enfim, a vida da maior parte das pessoas.

Essas forças afetam também as instituições, sejam elas governamentais ou não, privadas ou religiosas. Desse modo, no início deste novo milênio, a Igreja precisa repensar o seu papel e reavaliar as suas práticas.

Esta sensação de fragilidade que experimentamos é também um reflexo da inadequação das instituições que, até o momento, serviram de referência. Precisamos reconstruí-las a partir do resgate de parâmetros encontrados nas Escrituras e na história da Igreja.

Quem é a pessoa que queremos impactar com as boas novas de Jesus Cristo, no início do terceiro milênio?

Segundo um filósofo contemporâneo, “o homem moderno é o que experimenta a sensação do estranho, não tem certezas estabelecidas, apenas dúvidas”.2

A cada dia, somos levados a conviver com novas tecnologias, mas, no fundo, parecemos nômades no deserto, exilados do único lar que conhecíamos. Uma das características desta época é o não-pertencimento, representado pelos “sem-lar”, a exemplo do filho pródigo, que, após ter saído de casa, passou a viver “ num lugar distante” (Lc 15.11-32).

A sociedade que adentra o terceiro milênio é cativa da visão pós-moderna que nada vê além da fragmentação e que, como uma nau à deriva, afirma a “dissolução da totalidade, do grande relato, da interpretação abrangente e histórica”.3

Como é a paisagem religiosa no início do terceiro milênio? Ao contrário do que foi apregoado pelos profetas da modernidade, as sociedades modernas não decretaram o fim da religião mas viram surgir uma recomposição do campo religioso. Longe do controle e tutela institucionais, abriram-se novos espaços para a multiplicação de formas originais de crença.

Por um lado, a religião é relegada a um lugar secundário na sociedade. Por outro, cresce o interesse e a demanda por temas e práticas de caráter espiritual, nas formas mais variadas e diversas possíveis. Este processo — que acontece sem que possa ser controlado pelas instituições religiosas legitimadoras das crenças — é facilmente observado pela multiplicação de símbolos e discursos religiosos que formam esse sincretismo religioso que vemos por toda parte.

Num contexto fértil como este, em que testemunhamos diariamente a emergência de formas inesperadas de sociabilidade religiosa, é preciso buscar e explorar novos rumos que permitam que ações evangelizadoras se concretizem de forma dinâmica e criem raízes.

Todos os que se interessam pela evangelização devem prestar atenção ao cenário que se forma, no qual os atores são as ovelhas sem pastor que estão sendo “horrendamente tatuadas pelas complexidades” dos dias em que vivemos. E, em dias como estes, devemos tomar todos os cuidados para que haja entre nós motivo ou razão para que aqueles que nos observam venham a desdenhar de nós e se distanciar dos caminhos de Deus.
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Extraído e adaptado da Introdução ao livro de mesmo título, publicado pela Editora Ultimato, em Novembro de 2003. Para maiores informações sobre o livro consulte o site: www.robsonramos.com.br

Notas

1. MAINARDI, Diogo. Menos deus, por favor. Veja, São Paulo, 11 jun. 2003, p. 127.
2. BORNHEIM, Gerd. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 jul. 1995.
3. IANNI, Octavio. A sociedade global. Boletim do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião (Pontifícia Universidade Católica), São Paulo, [ANO, Nº], p. 180-181.


Robson Ramos

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